sábado, 18 de abril de 2009

S. Jerónimo

Este foi o meu trabalho sobre o padroeiro dos tradutores, secretárias e bibliotecários. O impulsionador da teoria da tradução. Espero que gostem.

São Jerónimo, de seu nome Eusebius Sophronius Hieronymus, nasceu no seio de uma família cristã em 331 em Strídon, actual Croácia. Strídon faz fronteira com a Panónia, Dalmácia (actual Jugoslávia) e com Itália, perto de Aquileia,

Apesar de nascer de pais Cristãos, só foi baptizado por volta de 366, quando este partiu para Roma com o seu amigo Bonus (que se tornou Bispo). Em Roma, Jerónimo estudou com o gramático, Élio Donato (gramático latino mais influente do séc. IV, que teve como alunos Jerónimo e Rufino). Foi também em Roma que aprendeu a falar grego e latim. Esta passagem por Roma não trouxe só conhecimento, foi também em Roma que Jerónimo frequentou circos, teatros e fez coisas pouco honrosas que acabaram por influenciar a vida de Jerónimo. De Roma, partiu para Trier (actual Alemanha), famosa pelas suas escolas e aí iniciou os seus estudos Teológicos com os monges egípcios, decidindo a seguir os seus ensinamentos.

Decidido a levar uma vida de asceta, rumou ao deserto Cálcis, actual Síria onde passou dois anos em penitência. Foi durante essa altura que teve o seu famoso sonho, onde era acusado de “Ciceriano” e não te Cristão.

Durante esse período, ele encontrou tempo para estudar literatura cristã e a Bíblia, para escrever e foi aí que aprendeu hebraico pela primeira vez, sob a alçada de um judeu converso.

Em 382 regressou a Roma onde serviu como intérprete no Sínodo das igrejas gregas e latinas, mas sem sucesso. Permanecendo em Roma, o Papa S. Dâmaso I (366-384 d.C.) convidou-o para seu secretário e foi nessa altura que Jerónimo iniciou-se como tradutor da Bíblia. Perante a multiplicidade das versões latinas, conhecidas por Vetus Latina, e da sua qualidade dúbia, o Papa encarregou-o de fazer a revisão dos Evangelhos, comparando-o com os originais da Septuaginta, ou LXX (Versão Grega), trabalho que depois se estendeu a todo o Novo Testamento e ao Livro dos Salmos. A nova versão do Novo Testamento foi no geral, bem aceite.

Após a morte do Papa Dâmaso, Jerónimo ficou desamparado. Não foi eleito para sucessor de Dâmaso, como muitos esperavam e foi condenado pelo Sínodo. Expulso de Roma pelos seus muito inimigos, foi para a Terra Santa acabando por se fixar em Belém em Agosto de 385. Aí, empreendeu a sua obra mais polémica que viria a definir o pensamento da tradução até aos dias de hoje, tradução por sentido ou literal, entre 390-405. A tradução do Antigo Testamento directamente da fonte hebraica, originou uma grande polémica relativamente ao assunto de fidelidade, pois sempre fora utilizada a Septuaginta como fonte para as traduções para latim. Crê-se que a fonte de Jerónimo tenha sido a Hexapla (Hebraica Veritas)

Mas apesar da contestação inicial, a versão de Jerónimo acabou por impor-se com o decorrer dos séculos (Concílio de Trento em 1546) e foi importante para a consolidação e unidade do Cristianismo. Santo Agostinho na sua De Doctrina Christiana refere essa mesma variedade de traduções latinas:

“O grande remédio contra a ignorância dos próprios signos (palavras) é o conhecimento de línguas. E, na realidade, as pessoas que falam latim, a quem agora pretendo instruir, para conhecer as Escrituras Divinas têm que conhecer outras duas línguas, o hebreu e o grego, com as quais se pode recorrer aos textos originais, se alguma dúvida surgir da [leitura] da infinita variedade dos tradutores latinos.”

Por existirem muitas as traduções e de sua qualidade variável, a tradução de Jerónimo, conhecida como Vulgata (Latim vulgar) veio tentar uma unificação, quase que uma simplificação para a leitura dos textos sagrados. Foi impressionante a influência que a Vulgata teve na maioria das línguas da Europa Ocidental, impressionante também foi ter servido de fonte para a tradução da Bíblia em todas as línguas vernáculas, a destacar John Wycliffe, entre outros.

Mas, se Jerónimo já teria um lugar como tradutor célebre por este feito, ficou ainda mais conhecido pela maneira como defendia as suas próprias traduções. As suas traduções e outros trabalhos continham prefácios e outros comentários que serviram como base para a actual teoria da tradução. Escreveu até várias cartas onde defendia os seus métodos. Dessas, destacam-se duas cartas - a n.º 57 (Ad Pammachium De Optimo Genere Interpretandi (A Pamáquio, O melhor método de tradução)) e a n.º 106 (a dois padres godos).

A sua carta a Pamáquio sobre o melhor tipo de tradutor, escrita em Belém (395) é o documento fundador da Teoria da Tradução Cristã.

Mais, essa mesma carta iria formular a teoria da tradução pós-Ciceriana, incorporando elementos “Cícerianos” que realçavam a importância de transmitir o verdadeiro sentido do texto, ao invés da mera imitação da palavra por palavra (verbo por verbo, como já dizia Cícero).

Esta carta de Jerónimo a Pamáquio foi motivada pela acusação de Rufino, tradutor de Origines , antigo amigo de Jerónimo, que o acusou de ter deturpado o sentido e a forma de uma carta que Epifânio, Bispo de Constância (Chipre), enviou a João, Bispo de Jerusalém.

Nessa controvérsia entre os dois Bispos, Eusébio de Cremona pediu a Jerónimo que traduzisse uma das cartas, mas que essa tradução não fosse publicada, era só para uso exclusivo do solicitador, Eusébio. Acontece que dezoito meses depois, a tradução apareceu publicada em Jerusalém e foi aí que Rufino acusou Jerónimo.

Na carta a Pamáquio, que é uma contestação violenta a Rufino, Jerónimo não se dirige a ele, mas sim a Pamáquio, procurando explicar o melhor método de tradução, começando por fazer a história do caso e, a seguir, mencionando os defeitos que os adversário lhe apontam, por exemplo:

"me uerbum non expressisse de uerbo, pro honorabili dixisse carissimu" (que não traduzi palavra por palavra, que em vez de honorável traduzi por caríssimo), para além de outras interpretações.”

Jerónimo, ainda apresenta o seu conceito de tradução, não se cansando em citar Cícero (De Optimo Genere Oratorum) e Horácio (Ars Poetica) em sua defesa. Jerónimo refuta a tradução literal, preferindo a tradução pelo sentido (esta oposição entre literalismo e sentido vai ocupar os tratados teóricos de tradução até aos dias de hoje), mas, no entanto, no que refere às Sagradas Escrituras, diz o seguinte:

“Pela minha parte, realmente, não apenas confesso, mas proclamo a plenos pulmões que quando traduzo os textos gregos - que não sejam as Sagradas Escrituras (onde até a estrutura da frase é mistério - não é a palavra, mas o sentido que exprimo.”

Para justificar este passo, Jerónimo apoia-se em Cícero, quando este justifica as suas traduções de Ésquines e Demóstenes. Mas esta excepção da tradução das Sagradas Escrituras ao método geral de tradução é um pouco contraditória nesta epístola a Pamáquio, pois, no seguimento da sua longa carta, Jerónimo dá inúmeros exemplos tirados, por exemplo, dos Setenta (Septuaginta) para abonar a sua tese sobre o bom tradutor. E, no essencial, para Jerónimo, o bom tradutor é o que traduz como "orator" e não o que traduz como "interpres", aquele que capta o sentido das ideias, não das palavras.

A influência que a sua teoria de tradução exerceu nos séculos seguintes foi imensa e, Martinho Lutero (1483-1546) quando acusado de ter traduzido erradamente algumas frases da Bíblia em alemão, decide escrever, em 1530, alguns considerandos sobre o acto de traduzir (Sendbrief vom Dolmetschen, que significa algo como Circular ou Carta aberta sobre a tradução), na verdade, ele, que rompeu com o Catolicismo (Contra-Reforma), não rompe com a teoria de tradução de Jerónimo. Sendo que a questão central, 1135 anos depois de Jerónimo, era ainda a questão de, numa tradução, se ter que traduzir a palavra ou o sentido.

Juntamente com Cícero, Lutero e Goethe, S. Jerónimo é um dos teóricos da tradução mais influentes na cultura ocidental.

Deixando um legado que ainda perdura no panorama da teoria da tradução, Jerónimo morre a 30 de Setembro de 420 d.C. (ou talvez 419 d.C.) em Belém. É proclamado Doutor da Igreja (Doctor Doctorum) no séc. XIII e canonizado no séc. XVIII. É hoje considerado por muitos como o padroeiro dos tradutores, bibliotecários e patrono das secretárias e o seu dia celebra-se no mesmo dia da sua morte.

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