quarta-feira, 8 de abril de 2009

Porque morrem as línguas?

Ultimamente, o assunto que mais tenho pesquisado dentro do espectro da linguística e da tradução é o estudo e registo de línguas em vias de extinção. Um possível bom exemplo de demonstração desse trabalho feito por uma equipa de linguístas, do qual faz parte K. David Harrison do Living Tongues Institute For Endangered Languages, é a realização de um documentário (por enquanto só acessível para educational screenings ao módico preço de $300) intitulado The Linguists. Este documentário, do qual só tive oportunidade de ver alguns excertos, mostra o trabalho de uma equipa de linguistas em vários locais do mundo, locais esses provavelmente integrantes do modelo concebido por Harrison denominado Language Hotspots, onde realizarou o levantamento, registo e estudo de algumas línguas em vários e distintos níveis de risco de extinção. O Enduring Voices Project, da National Geographic é também um projecto do qual Harrison pertence, e está basicamente interligado ao documentário e todo o trabalho que o compõe. Harrison é também o autor de um livro intitulado When Languages Die.

Porque é que, então, morrem as línguas? Depois de comentar esse assunto com alguns amigos e colegas, cheguei à conclusão de que o pensamento aparentemente mais recorrente em relação ao desaparecimento das línguas é o da evolução e sobrevivência. Tal como se de genética se tratasse, e toda a problemática da sobrevivência, não do mais forte, mas do mais adaptado. Como se pode medir a adaptabilidade de uma língua? Como sabemos os critérios de evolução ou de extinção de estas?

Partamos do principio de que as línguas podem, no mínimo, desaparecer devido a dois processos diferentes: um interno e um externo.

Os motivos internos poderão ser, por exemplo, a extinção, por alguma razão, do povo e da cultura onde são faladas. Assim, o processo de extinção é gradual (lá no fundo todos os processos de extinção linguística o são) até finar o seu último falante. Outro motivo poderá ser, por exemplo, uma adaptação a um mercado que emerge e que se torna dominante, e assim, a sua passagem para futuras gerações inútil ou desajustada, algo assim. São meramente suposições, penso que os motivos poderão ser os mais variados, dentro dos mais variados panoramas.

Os motivos externos são, na minha opinião, os causadores da esmagadora maioria de extinção linguística. Não apoio tanto uma teoria de extinção quase replicando a teoria da evolução e mutação genéticas. A grande causa da extinção linguística poderá ser a Política.

Como escreve Carlos Ferreira num comunicado apresentado no X Alcuentru Internacional Llingua Minoritaria y Educación,
"[...] Antre 1926 i 1974 anquanto durou la ditadura faxista de l Stado Nuobo an Pertual, la política d’eiducaçon de l stado defendie l' eideia de “un stado, ua lhéngua”, al mesmo tiempo que retiraba to l prestígio a la lhéngua mirandesa i proibie la sue outelizaçon drento de las paredes de las scuolas de la region [...]"

"Dezie-se que nun era ua lhéngua mas si un pertués deformado i mal falado que era perciso corregir, eibitar i eiliminar a todo l custo."

"Chegórun até nós alguns relatos que cúntan l rigor i smero cun que ciertos porsores purmairos lhebában a cabo essa tarefa. Por eisemplo un porsor que ansinou na scuola purmaira de Caçareilhos durante muitos anhos de l seclo XX, eiliminou quaije por cumpleto la lhéngua mirandesa nessa lhocalidade."
Podemos observar que no caso português, o nacionalismo do Estado Novo fez com que qualquer variedade (diversidade e riqueza) linguística do território nacional fosse suprimida, debilitada, porém não esquecida, como se pode observar hoje. Ainda em relação a esta língua, Amadeu Ferreira escreve sobre a distinção entre o estatuto de dialecto e língua baseada puramente em decisões políticas:
"[...] Tal significa que a distinção é colocada em aspectos externos à própria língua, o que diz bem da manipulação política, e até ideológica, a que aquelas palavras estão sujeitas."
Outro exemplo de repressão linguística que pode ser observado é o caso de Espanha, que aquando da ditadura Franquista ficou privada da utilização pública das suas línguas minoritárias (ou nem tanto!), reprimindo-as: o galego, basco, catalão e todas as outras línguas de pequeníssima expressão ao longo do contínuo linguístico romance. Estas acabaram por se tornar uma das armas de resistência.

Muitos outros exemplos serão certamente observáveis, como a imposição do inglês no território dos Estados Unidos em detrimento das línguas ameríndias aí existentes. Durante o regime Talibã no Afeganistão, o Dari foi sendo trocado pelo Pashton, a língua dominante do regime. Quando o Espanhol, o Português foram para o sul da América, comprometeu a continuidade de muitas outras línguas nativas.

O desaparecimento de línguas implica o desaparecimento de culturas, de modos de pensar, de catalogar, de observar o mundo, de concepções e pensamentos. Tal como hoje não se vive geneticamente (tanto) sob a lei do mais forte - daí termos desenvolvido vários sistemas de apoio aos mais fracos ou inaptos - não devemos também deixar que todos estes processos de pensamento, reflectidos em linguajares, se percam para sempre, tanto por motivos de praticabilidade como de comércio, adaptação e, sobretudo, repressão política. Mesmo que o processo de revitalização seja impossível (há casos de sucesso, como o Hebraico), soa-me bastante digno o registo das línguas moribundas para estudo futuro e para a continuidade da construção do mosaico cultural linguístico global.

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